Uber contrata Neelie Kroes

Alguém perguntou pelo interesse dos consumidores?

Neelie Kroes foi uma das vozes mais críticas na Europa contra as estratégias dos governos para limitar a expansão da Uber. Agora, a empresa de San Francisco devolve o favor à ex-vice-presidente da Comissão Europeia. A ex-responsável pelas pastas da Concorrência e da Agenda Digital integra um conselho de especialistas entre os quais se encontram Ray LaHood, ex-secretário dos Transportes do presidente Obama.

Os oito membros deste conselho consultivo realizou uma primeira reunião no início desta semana, segundo a própria Uber. O debate centrou-se na análise de todos os aspectos do negócio e nos "desafios" que o serviço alternativo ao táxi tradicional enfrenta em todo o mundo. O objectivo é que estas personalidades, incluindo o ex-primeiro-ministro peruano Roberto Danino ajudem a resolver problemas a nível dos ordenamentos e regulamentos jurídicos.

A ex-comissária holandêsa é atualmente uma das maiores promotoras da criação de novas empresas da era digital. O grupo também integra a princesa Reema bint Bandar Al Saud, conhecida pela promoção de mulheres empresárias no mundo árabe e CEO da Alf Khair. Com a chamada a terreiro destas figuras públicas a Uber pretende suavizar a mensagem com que tem defendido os interesses dos utilizadores desta plataforma que, segundo muitos, tem sido exageradamente agressiva.

Kroes, LaHood e outros especialistas em políticas públicas, abordando as questões derivadas do congestionamento, vão tentar fazer sensibilizar para as oportunidades que se abrem, com a partilha dos serviços de veículos, ao nível do desenvolvimento das cidades. Mas Uber conhece uma expansão mais rápida do que a mudança cultural imposta pelo avanço tecnológico. Esse grupo consultivo reunir-se-á duas vezes por ano e os seu mebros serão pagos com ações da empresa.

A Uber observa, na nota em que comunica a composição e missão deste grupo de assessores, que há vários países que decidiram regulamentar o serviço oferecido. A tática tem sido expandir a utilização da plataforma nas cidades e, em seguida, começar a batalha legal com os reguladores de transportes públicos locais.

Os Comissários europeus têm de esperar um ano e meio antes de poderem assumir uma liderança no sector privado, em setores em que tiveram responsabilidades enquanto membros da Comissão Europeia. No seu caso, ela deixou o executivo da UE, em Novembro de 2014, por isso, em princípio, cumpre a regra para aconselhar a Uber e para defender os interesses desta na esfera pública.

Em Portugal, a Uber opera em Lisboa e no Porto, apesar de o Tribunal da Comarca de Lisboa ter aceite uma providência cautelar interposta pela Associação Nacional dos Transportes Rodoviários em Automóveis Ligeiros (ANTRAL) contra a tecnológica, que proibia a Uber de operar. Acontece que a providência visou a entidade jurídica errada: a Uber norte-americana, quando a delegação portuguesa responde à empresa que tem sede na Holanda.

Até que o processo se resolva no Tribunal da Relação – onde a Uber apresentou recurso – os serviços UberX e Uber Black mantém-se ativos e os taxistas organizam várias manifestações contra a Uber, como a da passada sexta-feira, que pôs 6 mil táxis em marcha lenta em Lisboa, Porto e Faro.