Metade da população apresenta níveis de cádmio no organismo considerados prejudiciais para a saúde pelas agências de saúde pública. O alerta, relançado recentemente com base em dados científicos de 2025 e 2026, expõe uma realidade alarmante: este metal pesado altamente tóxico está a acumular-se na nossa comida diária sem que o consumidor se aperceba.
Quem faz o alerta? O segredo do poder da UFC-Que Choisir
Este estudo foi liderado pela UFC-Que Choisir (Union Fédérale des Consommateurs), a organização de consumidores mais poderosa e influente na França de hoje. Mas como é que eles conseguem uma independência tão absoluta frente ao poder político e económico? O segredo está na comunidade.
Ao contrário do seu rival estatal, o INC (que edita a revista 60 Millions de Consommateurs), a UFC recusa subsídios do Estado e publicidade de marcas. Financia-se exclusivamente através dos seus leitores e associados. Uma quota individual (que à nossa escala equivaleria a uns meros 20€ por ano ou 10€ por semestre) isoladamente não chega para nada. Mas esse pouco, multiplicado atempadamente por cinco ou 10.000 mil de cidadãos cumpridores, faria toda a diferença. É este esforço coletivo que financia laboratórios próprios para testes científicos independentes e sustenta um temido poder de litigância nos tribunais. Quando o consumidor financia a sua própria defesa, o país para para escutar e até as multinacionais tremem.
O que é o Cádmio e como contamina?
O cádmio (“Cd”) é um metal pesado que ocorre na natureza, mas cujos níveis nos solos agrícolas dispararam devido à atividade industrial e, sobretudo, ao uso intensivo de fertilizantes fosfatados na agricultura convencional. Como as plantas o absorvem muito facilmente pelas raízes, ele entra diretamente na cadeia alimentar através das culturas. O grande perigo para o ser humano é que o organismo tem extrema dificuldade em eliminá-lo, retendo-o no corpo (principalmente nos rins e ossos) durante 10 a 30 anos.
Riscos graves para a saúde
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), a exposição crónica e prolongada ao cádmio ataca o organismo em várias frentes:
- Insuficiência Renal: Acumula-se nos rins, destruindo progressivamente a sua capacidade de filtragem.
- Fragilidade Óssea: Interfere com o metabolismo do cálcio, provocando desmineralização, osteoporose e risco severo de fraturas.
- Doenças Cardiovasculares: Está fortemente ligado à hipertensão arterial e ao aumento do risco de enfartes e AVCs.
- Cancro: É classificado como carcinógeno de Grupo 1 (comprovado em humanos) pela Agência Internacional de Pesquisa em Cancro (IARC).
Os alimentos mais expostos e como se proteger
Embora o tabaco represente quase metade da ingestão nos fumadores, a alimentação é a única fonte de contaminação para os não fumadores. Dados publicados pela agência sanitária francesa (Anses) em 2026 e os testes laboratoriais da UFC-Que Choisir revelam os principais vilões e as formas de mitigação a nível individual:
- O Trigo, a Batata e o Arroz: Por serem a base da alimentação, representam a maior fatia de cádmio na dieta. Os dados de 2026 indicam que, nos grupos mais expostos, o aporte de cádmio provém mais das batatas do que do pão e da massa juntos.
- Como mitigar: Lavar abundantemente o arroz e cozê-lo em excesso de água (escorrendo-a no final) remove até 50% do cádmio. Substituir parcialmente estes hidratos por leguminosas (lentilhas, grão-de-bico) ajuda o corpo, pois estas são ricas em ferro e cálcio, minerais que bloqueiam a absorção do metal pelo organismo.
- O Chocolate Preto: Testes de meados de 2025 alertaram para os elevados níveis de cádmio no cacau, especialmente o de origem latino-americana (solos naturalmente ricos no metal). Um único quadrado de chocolate preto pode conter tanto cádmio como um prato cheio de massa. Recomenda-se consumo moderado.
- Marisco, Algas e Miudezas: Apresentam as concentrações mais elevadas por porção. O marisco chega a representar 15% a 20% da ingestão de cádmio nos adultos que o consomem regularmente.
- A Opção Biológica: Testes de fevereiro de 2026 demonstraram que massas com certificação biológica tinham, em média, metade do cádmio das versões convencionais, devido à ausência de fertilizantes fosfatados químicos na produção.
Enquanto a União Europeia debate metas políticas e agrícolas mais rígidas para limpar os solos, os especialistas são unânimes: a melhor defesa individual passa por variar ao máximo a dieta, moderar o consumo de batata, arroz e chocolate preto, e reforçar o consumo de leguminosas protetoras.
Ponta Delgada, 2026-05-19
Pel’O Secretariado Geral da ACRA
Mário Agostinho Reis